Cu de burro
e outras metáforas
Não costumo correr como esporte, desde criança caí na crença de que meu coração é meio fraco, não dá pra isso – foi por um falso diagnóstico de febre reumática que teria lesionado duas válvulas e depois de anos injetando benzetacil mensalmente nas nádegas e ter parado por decisão e riscos próprios, assim como parei por pura intuição o uso contínuo de anticoncepcional que um ginecologista prescreveu ainda na época do ensino médio, antes mesmo de eu ter vida sexualmente ativa; depois de anos de ter parado com a benzetacil, descobri que não tive febre reumática e que minhas lesões são congênitas – coração remendado já vem de carma antigo.
Não costumo correr, nem gosto de registrar os quilômetros pra ver como me superei num dia após o outro, sempre penso que meu fôlego não alcança e que é exigência demais pro corpo e que onde eu moro não tem muito como – estrada sem acostamento, só morro e curvas. Então eu decidi criar o hábito de uma boa caminhada subindo a montanha, quase todos os dias. Correr vicia, dizem, subir o morro no passo rápido também. O hábito de correr combina com tabaco ou cigarrinho misto, dizem. Não combina comigo – sou mais caminhada e overdose de café até o xixi sair com cheiro de cafeína.
Quase sempre às 17h a caminhada me espreita, o corpo fica me esperando calçar o tênis e abrir o portão, o corpo fica pedindo a hora do passeio, o momento do ar de fora no rosto, de desanuviar as histórias neuróticas dessa mente que se enfia demasiado na casinha-casulo, mergulhada no conforto de livros e incensos por todos os lados, e suplementos, cartas de tarô, xícaras de todos os tipos, gatos e outras carências. O corpo pega a coleira com sorriso no rabo, avisa que chegou a hora de desamassar a bunda. Se anima com a possibilidade de oferecer aos olhos outras histórias dos cantos de mato, dos cachorros de rua, dos carros acelerados e das cores do céu.
Acho que minha alma cigana está exausta de tanta familiaridade. Gostaria de vestir a mochila, rodar outros países, pisar onde tudo tudo é diferente e digno de nota – as pedras que compõem as calçadas, as estátuas de mármore ou de ferro de um político ou de um poeta do século XIX nas praças dos bêbados... até os bêbados são diferentes em línguas estrangeiras. Tudo reaviva os olhos e a pele.
Por aqui sigo me ofertando o movimento do corpo e perceber as pequenas mudanças no mesmo cenário – a biquinha d’água que ainda não secou neste outono, as pequenas cobras e lagartos que mostram as caras nessa época, a camiseta vermelha ainda pendurada na mesma velha cerca – o tempo não a surrou nem desbotou completamente ainda.
O corpo abana o rabo alertando a hora, e também a cachorrinha, a mais nova integrante da família, essa que encontrei perdida nessa mesma estrada que subo todos os dias e que um dia decidi adotar depois de ela ter me adotado primeiro. Ela que veio pra casa e já tinha um cuidador, que aliás é um amigo vizinho e que me passou a guarda e que por isso descobrimos que ela tinha o mesmo nome da minha filha, aí a sincronicidade pareceu ainda mais óbvia.
Depois de algumas semanas, sem decisão bem pensada, passei a chamá-la de Beth, não dava pra ter duas Lilas em casa... Todos os bichos que aqui já passaram ganharam apelidos antes de um nome, com ela não foi diferente.
Beth é pura distração e alegria, pensa que a vida vai sempre tomar conta, e por enquanto tem tido sorte. Se joga na estrada comigo e corre no meio das pistas como se o mundo fosse todo seu, e as motos e carros que desviem.
Além de tudo, faz quinze dias que Beth está no cio, sangrando pela casa e pelos caminhos. Ela não pôde ser castrada pois teve uma parada cardíaca com a anestesia. Ela viveu pra contar a história e até hoje ela não deu cria, mas dessa vez não sei o que nos aguarda nas próximas estações.
Subo o morro com meu graveto em punho protegendo a Beth dos atropelamentos e maremotos de cachorros que despontam dos sítios direto para cheirar seus hormônios femininos. É graveto apartando tentativa de cruzamento o tempo todo que nem sei mais se tô mesmo fazendo exercício físico. A maioria dos machos é muito maior do que ela e não tem chance, mas chega um baixinho que de cara dá encaixe, então desisto da caminhada e começo uma corridinha, ela, fiel escudeira, corre junto na fuga.
Na calmaria da descida, entro no passo mais lento, pego o celular da bolsinha a tiracolo e começo a gravar meus podcasts pra uma das amigas mais próximas que mora a mais de mil quilômetros de distância. Falo, falo, conto todas as coisas malucas da minha cabeça e dos meus sentimentos, a gente alcançou um relacionamento sem julgamentos e isso é uma liberdade tão boa.
Penso nesses nossos anos de amizade e que todas as vezes que nos encontramos sempre sentamos em qualquer boteco onde fosse, a qualquer horário do dia, e ela sempre faz questão de pedir a cerveja mais gelada acompanhada do famoso cu de burro. Faz toda a diferença... que saudade.
Nem sei qual foi a última vez que tomei uma dessas, cervejinha 600ml geladíssima e um copo com muito limão espremido e sal pra bebericar junto. Sem a minha velha parceira pra acompanhar não deve ter o mesmo gosto.
Nesses dias simples em que me inundo de livros e incensos pra festejar singelamente a vida, talvez meus cu de burro são os xotes de limão cravo espremido com própolis verde e água morna que tomo todas as manhãs em jejum – dizem que quem toma própolis todos os dias não pega dengue (e nem outros vírus).
E assim vamos indo, entre cios, saudades e pequenas coisas que continuam trazendo grandes sentidos.



Eu amo: textos, inteligência, aura, livros, caminhadas...tudo (nunca tomei o tal cu de burro)... Sou intensamente e imensamente feliz por conhecer Clara, Lila, seus livros incríveis e agora a cachorrinha Beth.
Nada melhor do que as saídas com as amigas.