Até cansar o cansaço
dessas crônicas divagatórias
Nem sempre é dormindo que se descansa – me lembrou uma desperta amiga depois de eu recusar o terceiro convite na mesma semana para nos encontrarmos com as crianças, e enquanto elas brincassem, a gente aproveitaria para estar juntas e colocar em dia os assuntos desses três meses que a gente não se vê de verdade – fora desses ávidos encontros na rodoviária à espera do ônibus escolar, ou do abraço que nos damos no apertado corredor do único supermercado da cidade – faz tempo que a gente não compartilha risadas, chás ou cervejas e filosofias de mesa de casinha de interior.
Nem sempre é reclamando do cansaço sem fim numa mensagem de áudio para essa velha amiga, e me jogando cedo na cama, e colocando o celular no modo avião, e tomando suco de maracujá após às 19h, e assistindo 15 minutos da série insossa, e calculando as 8h de sono que nunca são realmente cumpridas, e usando o aplicativo de meditação para voltar a pegar no sono na insônia das 3 da matina. Nem sempre é nesse cuidar de cumprir à risca os protocolos desse corpo cansado, dessa mente ansiosa, que encontro a forma mais plena do descanso que estou precisando. Me lembrou essa amiga, depois de insistir para que a gente finalmente encarasse uma sexta-feira à noite para pegar um forró na cidade vizinha.
Descansar às vezes são passos desengonçados jogada nos braços do habilidoso dançarino que frequenta assiduamente a casa de forró todas as sextas e se diverte chamando todos para dançar – das pessoas com mais ginga até as como eu, eternamente aprendizes da entrega a outros pés que me guiem. Descansar é voltar pra casa cascando o bico, falando besteira, comendo um dog prensado na esquina do último bairro da cidade.
Às vezes descansar é acordar com menos energia, é dormir em outra cama, é se enebriar com o cheiro de outro travesseiro, despertar com o alarme do despertador, pois os olhos não abriram sozinhos como de costume, é cumprir a segunda-feira arrastando o corpo, mas erma dos velhos caminhos neurais que costumam nebulizar meus pensamentos. Começar o dia tendo esquecido de alimentar esses velhos pensamentos ruminantes que têm sobrevivido em mim como os Jacus da minha varanda – indesejáveis, intrusos, engordando com a ração que eu sonambulamente coloco todas as manhãs para a gata e vejo-os devorar, mas viro as costas e não mudo a rota, não tomo outra atitude.
Descansar às vezes é tirar um minuto da manhã para mudar a conversa interna, contradizer as minhas conclusões velhacas, é arrastar o pote de ração para dentro de casa e deixar, finalmente, que esses bichos voadores se virem sozinhos.
Descansar, para mim, tem sido aprender a não dar explicações dos meus passos, dos meus descuidos, dos meus cansaços, é interromper conversas pela metade, é não me importar demais com tudo que minha mão toca ou deixou de tocar. É me desresponsabilizar emocionalmente e amar de um jeito mais simples.
Descansar é não cumprir, é não acreditar nas narrativas angustiantes, é sorrir subversivamente ofendendo as caretas e carrancas ao redor. É deixar o coração pulsando forte fora do bolso e dentro da vida.
Nem sempre a gente descansa quando contém o grito, mantém as virtudes, esconde as pulsões, apazigua as paixões. A rede na varanda pode ser o lugar mais desconfortável do mundo se tememos cobras ou nos irritamos com os jacus; a rede na varanda pode ser o lugar mais acolhedor do mundo se a gente finalmente encontrou boas histórias para deslocar as caraminholas da cabeça.
Descansar é não dar de beber à esperança quando ela pinta demasiadamente os olhos para além dos passos desse dia simples. É encontrar as amigas – mesmo no apertado corredor do supermercado –, entrar em padarias, perceber mais as crianças e os papéis em branco do que os futuros imaginados pautados nas nossas feridas antigas.
Nem sempre é dormindo que se descansa, ainda mais de um cansaço de milênios, de uma estafa ancestral. Descansar pede movimento, combina com subir a montanha, escrever uma crônica divagatória, abandonar a casa com tudo dentro por dois dias e sair de si, mesmo sem nenhuma permissão.
Vamos dançar até cansar o cansaço
Até que vire do avesso
Até um novo começo
(versos da música de Juliana Linhares)



Amei!
Sim sim sim. Um cansaço de milênios! Descansar saindo da casa murada, das nossas defesas alinhadas... Que texto maravilhoso. Também devo a mim mesma um encontro com as amigas... é revitalizador.